Soa a demagogia a proibição do carro do Holocausto na Viradouro. A Justiça do Rio concedeu hoje, 31 de janeiro, liminar favorável ao pedido da Federação Israelita do Rio, que alega que o Carnaval estaria sendo usado para "profanar" a memória do Holocausto, o extermínio de judeus pelo governo de Hitler. Ora, Carnaval sem polêmica não existe. E proibir que um importante episódio da história, embora lamentável, não seja mostrado à sociedade é esconder os fatos obscuros e negativos da humanidade em detrimento da propalação das virtudes e benfeitorias. Se a Viradouro fizesse apologia do Holocausto, a medida até se justificaria. Pelo contrário, o episódio seria retratado com tristeza, com esculturas inanimadas representando corpos mortos. Apenas Hitler seria representado por um componete, vestido a caráter. Aliás, foi o conhecimento desse elemento que fez a entidade a ingressar com ação judicial, já que o presidente da Federação, Sérgio Niskier, dissera que não iria recorrer à Justiça - até então ele apenas havia pedido à Viradouro para não utilizar a alegoria fruto discórdia.A representação não está fora do contexto nem é desapropriada e muito menos fere a preservação da memória dos judeus, como acusa Niskier. Está sim no contexto do enredo. Tanto que um trecho do belíssimo samba da Viradouro diz "Porém nem tudo são flores / Há dissabores, infelicidades / Vidas perdidas nesse mundo de maldade".
Não tenho procuração para defender Paulo Barros, o genial carnavalesco da Viradouro, mas não dá para deixar de rebater os argumento de Niskier, que diz que "o carnavalesco Paulo Barros demonstrou insensibilidade" e "o fato de tentar planejar este carro mostra que não houve outra preocupação além da estética". Barros chegou a ser criticado pelo carnavalesco da Grande Rio, Roberto Szaniecki, que é descendente de judeus poloneses. Os desfiles carnavalescos procurarm mostar como anda nossa sociedade e fatos históricos de forma leve, por vezes didática, e também denunciar crueldades, desmandos e infortúnios - quantas escolas já não criticaram a corrupção e violência em seus enredos? Portanto, a preocupação do Carnaval - e de Paulo Barros especificamente - não é meramente estética. Como em toda manifestação cultural, há conteúdo. E o polêmico carro pode nem ter oportunidade de entrar na avenida - caso a liminar seja mantida - para podermos dizer se houve ou não "insensibilidade". Talvez o impacto que cause seja comoção e solidariedade com o drama dos judeus.
E pergunto, por que tantos outras passagens da história, igualmente maléficas, são retratadas em inúmeros desfiles e ninguém nunca reclamou? O sofrimento dos negros na escravidão - todo ano há um navio negreiro com figurantes sendo chicoteados -, a matança dos índios pelos portugueses, para citar apenas alguns exemplos. Isso é brincar com o sentimento alheio? Claro que não, trata-se de representação de fatos históricos.
A verdade é que Paulo Barros injetou sangue novo no Carnaval carioca desde 2004, quando levou alegorias vivas para a avenida. E sabe como poucos trabalhar com enredos abstratos, como o "É de arrepiar" deste ano. Lamentamos mais uma ato de censura, a exemplo do que ocorreu com o cristo da Beija-Flor em 1989. Que cada um faça seu julgamento, mas sem demagogia!
* Christiano Bianco